
Eu estava andando direção a minha casa para pegaro violão, já que a chuva dava sinais claros de tregua e com uma viola seria mais fácil fazer amigos. Estava eu caminhando quando vi num ponto de onibus várias pessoas debrussadas sobre um senhor que jazia desmaiado no banco. Repentinamente algo me impulsionou para ir no velho homem. Cheguei lá ninguem sabia o que fazer, pareciam ter medo de tocar no velho todo torto, como se ele fosse um leproso. Sentei no banco coloquei o velho no meu colo e falei pra uma mulher revitar o bolso deles a procura de um celular, um telefone, qualquer coisa. Falei pra um muleque que olhava atonito que procura-se um guarda, qualquer coisa. E me veio na cabeça um e-mail que recebi a anos atrás sobre os sintomas de um derrame e o que fazer quando uma pessoa estiver tendo um. Atitudes simples que podem salvar a vida de um individuo. Olhei a face do velho, branca como cera, labios torcidos, pontas dos dedos roxos... "Alguem tem uma agulha? Um alfinete. Qualquer coisa que fure?" Uma senhora me esticou uma agulha com a qual furei as pontas dos dedos do velho onde o sangue espirou com pressão no inicio mas depois ficou mais ameno, e furei os lobulos das orelhas dele. Enquanto eu fazia isso já havia chegado um policial que já chamara uma ambulancia. Quando ele me perguntou: "Você sabe o que está fazendo?" - "Cara, sei mas eu nunca fiz. Mas sei que pode salvar a vida dele." Não falou mais nada comigo e pediu as pessoas que se afastassem para o senhor poder respirar. Lentamente o velho, ainda sobre meu colo, foi recobrando a cor. "Você é enfermeiro?" - "Não." Quando os paramédicos chegaram, uns dez minutos depois, o velho ainda estava desfalecido, porém tinha mais cor na pele. Pegaram ele e peguntaram que eu tinha feito. Respondi. Como eu sabia daquele procedimento? Tinha lido num e-mail tempos atrás. Perguntaram se eu queria acompanhar o velho, disse que não pois tinha um compromisso (a viola, o parque e os novos amigos).
Naquele dia vi a morte rondar perto de mim. E tive uma sensação que os médicos têm, e que hoje entendo muito melhor, a de salvar uma vida, ou ao menos proporcionar uma qualidade muito melhor no futuro. Tudo não durou mais de vinte minutos, mas foi tão longo e intenso, como se d um filme se tratasse. Se eu não tivesse lido aquele e-mail e prestado atenção não poderia amenizar os efeitos do derrame naquele senhor. Se o Sol não tivesse aparecido e meus dedos não tivessem coçado para tocar as cordas, não teria visto a cena e me apresentado para ser um ator nela.
Tudo. No passado e no presente são alimento para algo no futuro. Por isso é importante ficarmos atentos a TUDO.
O nome do senhor era Dante Biercks, jamais penso esquecer.
isso.