15 abril 2009

Pareidolia


No Domingo via TV com minha mãe. Quando foi dita uma palavra que desconhecia: Pareidolia. {pareidolia descreve um fenômeno psicológico que envolve um vago e aleatório estímulo (em geral uma imagem ou som) sendo percebido como algo distinto}, adorei o termo, a sonoridade e o significado da palavra. Fui fazer uma canção com ela.
Criei os quatro primeiros versos, parei por uns minutos para comer, e quando voltei ao violão não lembrava nem uma palavra, nem uma nota ou ritmo do que tinha criado. Fiquei quase uma hora tentando lembrar da canção e nada.
Deixei pra lá me xingando por não ter anotado antes de ceder a fome...

Hoje de manhã os versos recairam como um paralelepipedo na minha cabeça (com seu ritmo e notas incluidas), como num parto veloz nasceu a seguinte canção:


Pareidolia

Nem tudo o que se vê é o que existe
mesmo que tua mente insista a ver o que não está ali.
Se olha, olha com olhos bem abertos
se disser esteja certo pra não se arrepender depois.
A vida vai muito além quesse feijão com arroz.
Que vale é ter historias pra contar.
Se entre quatro paredes só existe nós
podemos por um salzim pra temperar.

Que importa se é real, pareidolia
hetero, gay, alegoria ou seja lá que cê quiser?
Importa que seja amor de verdade
dure eterno até que acabe
sendo tú homem ou mulher.
A estrada vai muito além do que a vista alcança
Se dê o luxo de ser mais criança.
Me entregue sua saliva antes que o mundo exploda
sonhei por anos beijar sua boca.

Tem vezes que é mais real a fantasia
até que se acorda um dia, acabou o carnaval
Dou viva a nossa mãe natureza
que te deu tanta beleza
mas negou-me seu amor.
Tem horas que o coração da gente se engana
amamos demais a quem sequer nos ama
Jogamos um pedaço da vida fora
ou amor que é amor jamais se cobra?

Pareidolia
Pareidolia
Pareidolia.



isso.

11 abril 2009

A arte é divina.


Outro dia conversava com uma amiga de longa data, que jamais havia lido nada meu (mesmo porque da ultima vez que tinha me visto eu mal sabia escrever meu nome todo), então dei algumas coisas minhas para ela ler. Depois de ler me perguntou porque todas minhas poesias eram assinadas com "danton" com letra minuscula. "É porque a arte é mais importante que o artista."

Muitas vezes quando eu escrevo, sinto que minha mão é segurada por algo que faz as palavras surgirem. Eu sou como um espectador que olha de fora meu corpo escrevendo coisas. Minha cabeça nada mais é que umr receptor das ideias que estão no ar, e meu corpo um canal para palavras que não me pertencem.
Sempre gostei de pensar que a arte é uma manifestação divina através dos artistas.


isso.

Aquecimento



Faz muito tempo que não sofro o surto literario no qual me encontro agora.
Durante essas duas ultimas semanas venho escrevendo muito, quase desesperadamente (seria o ato de escrever um ato desesperado?)
Lembro que da ultima vez que isso aconteceu eu vivia numa casa gelada e a luz de velas, num dos invernos mais frios que a Espanha já teve. Quando hoje penso, talvez escrevesse para me aquecer. Passava boa parte do dia na biblioteca (lá tinha calefação e muuuuuitos livros) e quando em casa, sempre escrevendo.
Agora escrevo até mais. Já que não tenho tantos livros para alimentar minha fome de palavras. Faz uma semana que estou submergido numa historia que chama-se "A Gaiola", não consigo parar de escreve-la. Durmo e acordo pensando nela. Falta pouco para o desfecho.
Ontem minha mãe a leu.
"Meu filho. Você tem uma cabeça muito doida. Essas coisas saem dai de dentro mesmo?"
De onde sairiam senão?

Estou com frio, quem sabe por isso escreva.



isso.

10 abril 2009

Preguiça ou masoquismo


Confesso,
Sou um escritor preguiçoso. Creio que passo muito do meu tempo ocioso apenas pensando em lugar de estar colocando idéias no papel. Em lugar de estar arrancando da minha cabeça todos esses personagens que sonham tomar forma.
Penso que a “inspiração” pode não vir. Mas quando abaixo a cabeça e começo o trabalho, sempre sai alguma coisa.
E todas elas falam de mim. Passo a me conhecer melhor nas coisas que eu escrevo, tanto quanto andar pelo mundo e perceber as pessoas e historias.
“para quem estou escrevendo?”
Escrevo para mim. Uma coisa que sempre acreditei, é que todos os poemas que fiz, mesmo que inspirados em mulheres, animais ou coisas eram para mim. Tenho todos os meus originais guardados com muito amor. Cadernos que são retratos literários de uma época. Muitos que fui ao longo dessas longas viagens e anos.

Mas comecei falando que era preguiçoso.
Escrever é como um parto. Como qualquer tipo de arte genuína, tem que ser um parto. Diferente disso, desacredito que seja arte.
Um parto dói, mas me sinto masoquista ultimamente.


isso.

Mini Poem

Inalcançavel.

Se é pra pensar nela, penso olhando nuvens
Brancas, fofas e de inalcançável beleza.
Penso que ela é como a água lá no céu
Que vai juntando suas gotas com leveza
Até formar nuvens frondosas e densas
Para chover na minha horta, hoje seca.



isso.

Espiral


Existe um estudo de Jung (caso não conheça o Carl, não perca tempo) que se chama "O segredo da flor de ouro". É um estudo sobre um texto milenar chinês que conseguiu sobreviver a brutal ignorância humana. O mais interessante do estudo é o texto chinês na integra, que ficou conhecido no ocidente através de Jung.
Por que falo disso? Eu estava pensando num momento do livro que diz: "Se existe uma única verdade absoluta, essa é: Toda energia se movimenta em circulo."

Os atomos são cíclicos. Os planetas. A alquimia da culinária. O cão que vai deitar. As estações. As ondas de som, rádio, celular, televisão. Até o DNA.
Pensava nisso depois de olhar essa imagem que estava guardada nos meus arquivos. É uma galaxia em espiral.


isso.

08 abril 2009

Novo no velho


- Você já leu a Odisseia de Homero?
- Não.
- Então é nova para você.

As vezes nossa fome por novidades nos deixa insensiveis ao mundo. A fome por possuir e possuir toma conta de nossa vida. Queremos ter coisas, sentimentos, pessoas.

Imagino o olhos do primeiro público da primeira projeção de cinema. Como aquilo deveria parecer fascinante diante dos olhos deles. Outro dia fui assistir uns filmes classicos, era uma oportunidade unica de ver aqueles filmes em tela grande. O primeiro de 1903, logo 1924.. tinha de outras datas. Mas vi apenas os dois primeiros, já que minha amiga não aguentou ficar na sala. Acostumada e viciada em enlatados americanos e velocidade de edição vertiginosa, ficou enjoada com as imagens sem efeitos especiais.

Hoje quando o filme é lançado no cinema. Você pode ir no camelô compra-lo para ver em casa. Já não existe aquela emoção de esperar por alguma coisa, como na minha infância. Onde foi parar o valor da surpresa? E depois que vê o filme nunca mais quer saber dele, é totalmente descartavel. Estava com minha mãe que se queixava de não ter nenhum filme para ver. "Mas você tem mais de cem aqui. Não pode ver de novo um que você gostou?" A ideia lhe pareceu quase absurda.



isso.

07 abril 2009

DNA


Não há lugar onde eu veja mais sabedoria que nos olhos de um bebê.
Nos olhos de uma criança existe a ingenuidade limpa de todas as mentiras que o mundo obriga seus filhos aprenderem e repetirem, como numa boa escola medieval.
Nos olhos de uma criança as respostas não são pensadas e calculadas para surtir o melhor efeito. Simplesmente são.
Uma vez li num livro (gostaria muito de lembrar agora qual): Deus não existe, ele É.
É por isso que as crianças estão mais proximas do divino. Elas simplesmente são, sem desculpas, mentiras ou diplomacias. A verdade não precisa de diplomacia para existir.

Um dos meus mestres uma vez me falou: "No hay nada mejor que estar entre los jovenes. Los jovenes saben de las cosas actuales. Saben todo lo bueno que hay que saber. Y aún están abierto a aprender cosas nuevas. Nada es más triste que ser un 'adulto'. Jamás pierda al niño que aún existe dentro de ti."
Faz umas semanas encontrei uma amiga de minha mãe que não me via desde que eu tinha oito anos de idade. Lembro que ela é uma grande responsável pelo fato de eu gostar de ler. Num momento da nossa conversa ela me disse: "Danton você tá com cara de homem. Mas ainda vejo perfeitamente aquele menino em você." - "Luto bastante para preservar ele." respondi.

Se nascemos com um contato tão direto e puro com Deus, porque o jogam fora ao longo de nosso envelhecimento?
A sabedoria de um bebê é ancestral, está no seu DNA. Não é capaz de ser compreendida com as palavras desse plano carnal, que nada mais são que tendências culturais.
Deus está no nosso DNA.


isso.

06 abril 2009

O homem dos doze



Uma vez eu estava em casa. Chamaram no portão e fui atender.
Era um senhor negro interessado em comprar umas telhas velhas que eu tinha lá em casa. Conversamos, combinamos o preço e uns vinte minutos depois ele voltou com um carrinho de mão e seu saudável e enorme filho para lhe ajudar a levar as telhas.
O nome do senhor era Emanuel. Ficamos conversando sobre a necessidade de mudar nosso bairro, tão carente de tudo. Da necessidade de proporcionar algo para os jovens, tirando eles assim do tédio e da consequente entrada no mundo das drogas. Quando percebi que Emanuel tinha doze dedos nas mãos. O mais curioso é que, as pessoas que têm doze dedos têm a mais o mindinho. Emanuel tinha a mais o polegar. Emanuel significa Deus está conosco e indica um ser humano em busca do conhecimento que lhe permitirá tomar as rédeas do seu destino.
Fiquei com um pensamento na cabeça. O homem de doze dedos que se chama Emanuel veio na minhas casa me dar dinheiro.
Seria um sinal?


isso.

Novos tempos

Já pertenço a uma gereção ultrapassada. Fazer o que? Assim é a vida. Um dia você é vanguarda e no outra velha guarda.
Ontem fui a um evento de Rock. Bandas tocando HardCore, Heavy Metal e outros sons turbinados a base de distorções e gritos. Nada de muito especial nisso, concordo. A primeira vista, tudo parecia como na minha "época" de rockeiro. Mas com um olhar nem tão mais profundo via-se tudo tão diferente.
Havia lá um ambiente "tecno" com a monótona música eletronica repetindo-se pela seleção de um DJ duvidoso. Na minha época os rockeiros eram mais conservadores, jamais admitiriam num evento de rock, música eletrônica.
Vi também muitas meninas beijando meninas. Parece que é uma febre que está tomando conta da juventude. Mas afinal, que se pode fazer quando se é jovem que não seja experimentar?

Me pareceu um pouco estranho. Mas fico muito feliz que as coisas comecem a tomar esse rumo. Onde as pessoas podem ser o que elas querem sem medo. E gostar de qualquer tipo de música, ao ponto de mistura-las sem preconceitos.
Viva a nova geração.



isso.

02 abril 2009

Desejos e Promessas

Tem uma canção minha que estou tocando todos os dias, várias vezes ao dia.
Vou colocando todas minhas canções aqui, até mesmo como forma de registro.


Desejos e promessas.

Pra tudo na vida tenho que ser um ator.
Não importa se é pra ganhar ou perder.
Velando no verso, no terço, aprendo a levar
os tapas que querem me presentear.

Cantando poesias, fingindo Brigitte Bardot
em Búzios ou entre o teu corredor.
Cantando bem prosa eu finjo só pra te agradar
aqui nesse confortavel sofá.

Se eu descubro
Qual é a tua senha, a tua palavra certa.
Teus desejos sem promessas.
Adianto
Nosso lugar seguro, meu peito sempre aberto.
Por teus beijos tão incertos.

Pra sempre na vida eu penso em ser teu amor
e é só assim que eu posso ganhar.
Viajo no terço, no verso, aprendoi a tecer.
Estrofes pra poder te namorar.

Cantando vitorias, criando a bomba explosão.
carinhos que levem ao teu coração.
Contando empates, orgasmos em mim, em você.
Medalha para o Brasil na TV.





isso.

Reforma ortográfica


Falou-se muito na tal reforma ortográfica. Que não sei o que da unificação da lingua portuguesa.
Dou minha cara a tapa. Acho tudo isso uma grande babaquice (não digo palhaçada porque respeito muito os palhaços).
A lingua é uma entidade mutante. Não pode ser definida como definitiva, JAMAIS. Onde foi parar o latim? Porque ninguém mais fala aramaico?
Se não fosse a cultura de massa criada na era industrial, Brasil hoje seria vários países (mais vários paises do que já é). E bem provável que os dialetos das diferentes regiões já estariam a caminho de tornarem-se idiomas diferentes.
Se você pegar uma pessoa contemporânea e joga-la num Brasil de duzentos anos atrás, ele vai penar para entender o que dizem aquelas pessoas sujas e quase medievais.
Quando eu visitei o interior de Portugal, não entendia o que aqueles senhores lusitanos estavam falando. E na maior parte do tempo eu fingia que entendia o "português" deles.

Estava pensando em algo ontem.
Eu cresci numa região esquecida pelo estado como muitas outras nessa nação. Com gente muito humilde que talvez nunca tenham lido um livro inteiro. Grande parte deles são analfabetos funcionais, e com a mãozinha do governo na aprovação automática nos colégios públicos, esse número de analfabetos funcionais cresceu consideravelmente.
Hoje a interatividade das pessoas na internet, a criação de perfis e convivência on-line é uma realidade para muitos. Todo peixe quer estar na rede. Os analfabetos (funcionais ou não) também.
Essa parte da população (que não é pouca) está tendo contato com a palavra escrita só agora, através da internet. Porém essa palavra escrita está codificada.
"vc vai ta na net hj?" Agora viaje trinta anos no passado e mostre essa frase pra um ilustrissimo imortal, entenderia alguma coisa?
Daqui a 10 anos. Todos esses analfabetos funcionais de hoje saberão apenas escrever esse português. Não saberão que você não é vc.
Quando essa próxima era da lingua portuguesa chegar, vão fazer outra reforma ortográfica?


isso.

01 abril 2009

O homem da forca invisivel

Ontem eu estava em casa tocando viola e cantando algumas canções minhas. Quando um amigo leu uma delas e me disse: "Coloca essa aqui no blog."
Faz uns tempos eu estava vendo o noticiário com uma amiga, quando falaram da execução de Saddan Hussein. A execução em si não foi gravada, apenas mostraram uma foto dele já enforcado e morto. Nesse momento eu disse a frase "o homem da forca invisível."
Minha amiga então, -compositora nata como jamais conhecerei - começou a cantarolar essa frase, e ficamos brincando com ela. Fui para casa com a ideia básica na cabeça. De madrugada comecei a trabalhar nela. Lembro que a primeira coisa que fiz no dia seguinte ao acordar foi ligar pra minha amiga e cantar-lhe a seguinte canção.


O homem da forca invisível.

O homem da forca invisível
Não reza, não chora
e vive atirando esmolas
a quem não têm mãos pra catar.

O homem da forca invisível
não passa, não fica.
Sorrindo vai jogando vidas
pra besta faminta lanchar.

O homem da forca invisível
contesta a justiça e a paz
se vê a miseria ele aplaude
quer mais.
E ganha dinheiro vendendo
petróleo, fumaça e dor
pedindo sua alma como fiador.
E vai construindo enormes castelos
encima de quem
não têm como se apoiar em ninguem
Se vê uma criança sorrindo
seu ego não se satisfaz.
O homem invisível vai lá
e a destroi.

O homem da forca invisível
não entende, não explica.
Se sente com um rei na barriga.
Um rei que não sabe reinar.

O homem da forca invisível
não leva, atinge.
Te engana, ilude e finge
que veio pra lhe ajudar.




isso.